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Cirurgia Cardíaca Minimamente Invasiva: Taxa de Transfusão 4,5 Vezes Menor

Estudo da Cardio Assist com 630 cirurgias cardíacas minimamente invasivas registrou 8,8% de transfusão de sangue, cerca de 4,5 vezes abaixo da taxa do registro norte-americano do STS. Entenda o que explica esse resultado.

Menos Transfusão de Sangue na Cirurgia Cardíaca: O Que Mostraram 630 Pacientes Operados no Mato Grosso do Sul Resumo do Artigo: Receber sangue de doador durante uma cirurgia do coração salva vidas em situações críticas, mas não é um evento neutro para o organismo. As diretrizes internacionais mais recentes recomendam que a transfusão seja tratada como último recurso. Nossa equipe analisou 630 cirurgias cardíacas minimamente invasivas consecutivas realizadas entre 2019 e 2026 e registrou uma taxa global de transfusão de 8,8%. Nas cirurgias de ponte de safena feitas com o coração batendo, o índice foi de 1,9%. Esse resultado é cerca de 4,5 vezes inferior à taxa do maior registro contemporâneo de cirurgia cardíaca dos Estados Unidos e reflete a combinação de acesso cirúrgico reduzido, técnicas sem parada do coração e um programa estruturado de conservação do próprio sangue do paciente.

Uma das perguntas mais frequentes no consultório, pouco antes de uma operação cardíaca, é se o paciente vai precisar receber sangue de outra pessoa. A preocupação é legítima e revela uma percepção correta: a transfusão é um recurso valioso, porém não é isento de consequências para o corpo.

A ciência avançou muito nesse campo nos últimos anos. Hoje sabemos que boa parte das transfusões realizadas em cirurgia cardíaca pode ser evitada quando o procedimento é planejado com esse objetivo desde a primeira consulta. A cirurgia cardíaca minimamente invasiva é uma das ferramentas centrais dessa mudança, porque reduz de forma expressiva o sangramento cirúrgico.

Nossa equipe apresentou no 52º Congresso da Sociedade Brasileira de Cirurgia Cardiovascular (SBCCV) uma análise dos resultados de transfusão em 630 cirurgias consecutivas realizadas em Mato Grosso do Sul. Ao longo deste artigo, vamos explicar em linguagem acessível o que foi estudado, o que os números mostram e, principalmente, o que isso significa na prática para quem vai operar o coração.

1. POR QUE EVITAR A TRANSFUSÃO DE SANGUE É UM OBJETIVO MÉDICO?

A transfusão de concentrado de hemácias é a administração das células vermelhas do sangue de um doador para repor a capacidade de transportar oxigênio. Trata-se de um tratamento que salva vidas quando o organismo realmente não consegue mais compensar a perda sanguínea.

Ao mesmo tempo, o sangue de outra pessoa é um tecido biológico estranho ao corpo do paciente. As diretrizes de 2024 da Associação Europeia de Cirurgia Cardiotorácica (EACTS) sobre gerenciamento do sangue do paciente destacam que a transfusão perioperatória se associa a riscos imunológicos, infecciosos, pulmonares e renais, e recomendam que seja considerada uma estratégia de último recurso.

Na prática do dia a dia, o paciente que recebe transfusão tende a apresentar uma recuperação um pouco mais lenta. Em nossa própria série de casos, entre as cirurgias de válvula, o grupo transfundido permaneceu mais tempo na unidade de terapia intensiva:

  • Nas cirurgias da válvula aórtica, o tempo médio de UTI foi de 5,1 dias entre os pacientes transfundidos, contra 3,8 dias entre os não transfundidos.
  • Nas cirurgias da válvula mitral, o tempo médio foi de 4,1 dias entre os transfundidos, contra 3,4 dias entre os não transfundidos.
  • A fibrilação atrial no pós-operatório ocorreu em 7,1% dos pacientes transfundidos e em 5,7% dos não transfundidos.

É importante interpretar esses dados com cuidado. A transfusão não é necessariamente a causa da internação mais longa: pacientes que sangram mais costumam ser, também, os casos de maior complexidade. Ainda assim, a associação é consistente com a literatura internacional e reforça o princípio de que preservar o sangue do próprio paciente é preservar a sua recuperação.

2. O QUE FOI ESTUDADO: 630 CIRURGIAS CARDÍACAS CONSECUTIVAS

O trabalho apresentado no congresso da SBCCV é um estudo observacional retrospectivo. Isso significa que analisamos, de forma organizada, os resultados de operações que já haviam sido realizadas, sem alterar a conduta de nenhum paciente.

Foram incluídas 630 cirurgias cardíacas minimamente invasivas realizadas entre 2019 e 2026 pela mesma equipe cirúrgica, atuando em diferentes hospitais. Todos os dados foram registrados de forma prospectiva em nossa plataforma de prontuário eletrônico, o que significa que as informações foram lançadas à medida que cada caso acontecia, e não reconstruídas depois.

O perfil dos pacientes operados foi o seguinte:

  • Idade média de 59,5 anos, com pacientes entre 21 e 88 anos.
  • 68,3% dos operados eram do sexo masculino.
  • O desfecho analisado foi a necessidade de transfusão de concentrado de hemácias durante a cirurgia ou em qualquer momento até a alta hospitalar.

A distribuição dos procedimentos mostra que não se trata de uma seleção de casos simples, e sim do espectro completo da cirurgia cardíaca de adultos:

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Tipo de procedimento Casos (n) Percentual da série
Revascularização do miocárdio (ponte de safena e mamária) 339 53,8%
Cirurgia da válvula aórtica 119 18,8%
Cirurgia da válvula mitral 86 13,6%
Outros procedimentos estruturais 45 7,1%
Cirurgia de Bentall e De Bono 21 3,3%
Correção de aneurisma da aorta ascendente 12 1,9%
Trocas valvares múltiplas 8 1,2%

3. O RESULTADO PRINCIPAL: 8,8% DE TRANSFUSÃO

Entre as 630 cirurgias analisadas, 56 pacientes precisaram receber transfusão de concentrado de hemácias. Isso corresponde a uma taxa global de 8,8%, ou aproximadamente 1 paciente em cada 11 operados.

Quando separamos os resultados por tipo de técnica, o padrão fica ainda mais claro. Na cirurgia de revascularização do miocárdio, 74% dos casos (251 pacientes) foram realizados com o coração batendo, sem o uso da máquina de circulação extracorpórea. Nesse grupo, a taxa de transfusão foi de apenas 1,9%.

Nas cirurgias de revascularização em que a máquina de circulação extracorpórea foi necessária por razões de segurança, a taxa de transfusão foi de 3,4%. Ambos os números são muito inferiores ao que se descreve habitualmente na literatura para esse tipo de operação.

4. COMO ESSE NÚMERO SE COMPARA COM A LITERATURA INTERNACIONAL

Para dimensionar o resultado, comparamos a taxa de 8,8% com os grandes estudos e registros disponíveis na literatura. O maior deles é o banco de dados da Society of Thoracic Surgeons (STS), dos Estados Unidos, que analisou mais de 2,1 milhões de cirurgias entre 2010 e 2019 e encontrou uma taxa de transfusão de 39,3%.

Gráfico comparativo das taxas de transfusão de concentrado de hemácias em cirurgia cardíaca, com a série da Cardio Assist em 8,8% e o registro STS em 39,3%

A tabela abaixo reúne as principais referências utilizadas nessa comparação:

Deslize para o lado para ver a tabela completa
Fonte População estudada Casos (n) Taxa de transfusão
Série Cardio Assist, 2019–2026 Cirurgias minimamente invasivas consecutivas 630 8,8%
— subgrupo sem circulação extracorpórea Revascularização com o coração batendo 251 1,9%
Registro STS, 2010–2019 (EUA) Revascularização ou troca valvar aórtica isoladas 2.151.430 39,3%
Estudo CORONARY Revascularização sem máquina de CEC 4.752 50,7%
Estudo TRICS III Cirurgia cardíaca com CEC, critério restritivo 5.243 52,3%
Estudo TRACS (InCor, Brasil) Cirurgia cardíaca eletiva, critério restritivo 502 47,0%
Programa estruturado de conservação de sangue Cirurgia cardíaca, após implantação do programa — 20,8%
Universidade da Virgínia (EUA) Cirurgia mitral minimamente invasiva 74 10,8%

A leitura mais relevante dessa tabela não é o ranking, e sim o efeito somado. Nenhum componente isolado produz esse resultado: a abordagem minimamente invasiva reduz a transfusão pela metade na cirurgia mitral, operar sem a máquina de circulação extracorpórea reduz um pouco mais, e adotar um critério restritivo para indicar a transfusão reduz outra parcela. A taxa de 8,8% é compatível com a soma desses fatores dentro de uma rotina padronizada.

Um dado adicional ajuda a entender o quanto a prática da equipe pesa nesse desfecho. Um estudo clássico publicado no JAMA avaliou 408 hospitais americanos e encontrou taxas de transfusão que variavam de 7,8% a 92,8% entre eles. Os autores demonstraram que as características do hospital explicavam apenas 11,1% dessa variação, e o perfil dos pacientes, 20,1%. Ou seja, a maior parte da diferença decorre da forma como cada equipe trabalha.

5. OS QUATRO PILARES QUE EXPLICAM O RESULTADO

Um resultado como esse não vem de um único equipamento ou de uma única técnica. Ele é consequência de uma rotina aplicada de maneira sistemática em todos os casos, do consultório até a alta hospitalar.

Primeiro pilar: acesso cirúrgico reduzido. Na cirurgia minimamente invasiva, o osso do peito não é serrado. O acesso ao coração é feito por um corte lateral de poucos centímetros entre as costelas. Como o osso esterno é um tecido esponjoso e muito vascularizado, evitar sua abertura elimina uma das principais fontes de sangramento da cirurgia cardíaca convencional.

Segundo pilar: operar sem parar o coração. Sempre que a anatomia e o quadro clínico permitem, realizamos a revascularização com o coração batendo, sem a máquina de circulação extracorpórea. A máquina exige o uso de anticoagulantes em doses elevadas e provoca alterações nas plaquetas e nos fatores de coagulação, o que aumenta a tendência ao sangramento.

Terceiro pilar: conservação do próprio sangue do paciente. Este é o conjunto de medidas conhecido internacionalmente como Patient Blood Management. Ele começa semanas antes da cirurgia, com a investigação e o tratamento da anemia pré-operatória, e continua no centro cirúrgico com o uso sistemático de máquinas de autotransfusão, que recolhem, lavam e devolvem ao paciente as suas próprias hemácias. Em nosso serviço, esse equipamento permanece em uso também nas primeiras 24 horas de pós-operatório, na UTI.

Quarto pilar: critério restritivo e recuperação acelerada. Adotamos um limiar institucional definido para indicar a transfusão, em vez de transfundir por hábito diante de um exame levemente alterado. Essa conduta está integrada ao protocolo de recuperação acelerada (ERAS) que aplicamos em todos os pacientes, no qual mobilização precoce, controle da dor e retorno rápido à alimentação atuam em conjunto.

6. O QUE ISSO SIGNIFICA NA PRÁTICA PARA O PACIENTE

Números de estudos só têm valor quando se traduzem em benefício concreto. Para quem tem indicação de cirurgia cardíaca, uma taxa baixa de transfusão significa, na prática, alguns ganhos bem palpáveis.

  • Menor exposição a reações imunológicas e a riscos infecciosos associados ao recebimento de sangue de doador.
  • Menor tempo de permanência na unidade de terapia intensiva, conforme observamos nas cirurgias valvares da nossa série.
  • Redução da dependência dos estoques do banco de sangue, o que é particularmente importante em pacientes com tipagem sanguínea rara ou com anticorpos que dificultam a compatibilidade.
  • Possibilidade concreta de cirurgia para pacientes que, por convicção religiosa, não aceitam receber sangue de doadores.
  • Recuperação mais previsível, sustentada pela mesma lógica que orienta a recuperação pós-operatória de cirurgia cardíaca em nosso serviço.

Vale um esclarecimento honesto: exceto em objetantes de transfusão sanguínea por questões de escolha ou religiosas, nenhuma equipe pode prometer uma cirurgia sem transfusão. Existem situações em que receber sangue é a conduta correta e necessária, e nesses casos a transfusão é indicada sem hesitação. O compromisso possível, e o que efetivamente perseguimos, é que ela seja necessária no menor número de casos.

7. LIMITAÇÕES: O QUE ESTE ESTUDO NÃO PERMITE AFIRMAR

Apresentar dados próprios exige apresentar também suas fragilidades. Este é um estudo retrospectivo, de uma única equipe cirúrgica, sem grupo de comparação contemporâneo e sem ajuste estatístico de risco. Ele descreve um resultado, mas não prova uma relação de causa e efeito.

A comparação com a literatura internacional também é indireta e deve ser lida com essa ressalva. As séries de referência são compostas majoritariamente por cirurgias realizadas com abertura do osso do peito, em períodos históricos diferentes, com perfis de pacientes distintos e com definições de desfecho que se aproximam da nossa, mas não são idênticas.

Por isso, os números apresentados servem para dimensionar a magnitude do resultado obtido com uma rotina específica de trabalho. Eles não constituem comparação estatística formal entre serviços, e não devem ser interpretados dessa maneira.

8. PERGUNTAS FREQUENTES SOBRE TRANSFUSÃO EM CIRURGIA CARDÍACA (FAQ)

Q: Qual é a chance de eu precisar receber sangue na minha cirurgia?

A: Depende do tipo de procedimento, do seu nível de hemoglobina antes da operação e da técnica utilizada. Em nossa série de 630 casos minimamente invasivos, a taxa global foi de 8,8%, e nas revascularizações realizadas com o coração batendo, de 1,9%. A estimativa individual é feita na consulta pré-operatória, a partir dos seus exames.

Q: Como funciona a máquina que devolve o meu próprio sangue?

A: O recuperador celular, conhecido como cell-saver, aspira o sangue que se acumula no campo cirúrgico, separa as hemácias por centrifugação, lava essas células para remover resíduos e as devolve ao paciente por via venosa. É o seu próprio sangue retornando ao seu corpo, sem qualquer risco de incompatibilidade.

Q: A anemia antes da cirurgia precisa ser tratada?

A: Sim, e esse é um dos pontos mais negligenciados no preparo cirúrgico. Chegar ao centro cirúrgico com hemoglobina baixa é o principal fator que leva à necessidade de transfusão. Por isso investigamos e tratamos a anemia com semanas de antecedência, sempre que o quadro clínico permite aguardar.

Q: Sou Testemunha de Jeová. Posso operar o coração sem receber sangue?

A: Sim. A combinação de acesso minimamente invasivo, cirurgia sem circulação extracorpórea, recuperação celular contínua e preparo hematológico prévio torna viável a operação sem transfusão em pacientes selecionados. Essa decisão exige uma avaliação individual detalhada e um plano cirúrgico específico, discutido previamente com você e com a sua família.

Q: Este estudo foi publicado?

A: Sim. O trabalho foi apresentado no 52º Congresso da Sociedade Brasileira de Cirurgia Cardiovascular, em João Pessoa, e o resumo consta nos anais publicados no Brazilian Journal of Cardiovascular Surgery, cuja referência completa está ao final deste artigo.

printscreen do artigo publicado nos anais do Congresso da SBCCV em 2026

Se você tem indicação de cirurgia cardíaca e deseja conhecer as estratégias que reduzem a necessidade de transfusão no seu caso, busque uma segunda opinião especializada e agende uma avaliação com a equipe da Cardio Assist para discutir o planejamento minimamente invasivo mais seguro para o seu coração.

9. REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS

  1. Faria LSP, Capriata IE, Lopes ECR, Albernaz C, Maya PAH. Transfusão de concentrado de hemácias na MICS: análise descritiva institucional de 630 casos. Brazilian Journal of Cardiovascular Surgery, v. 41, supl. 4, 2026 (pg. 118). 52º Congresso da Sociedade Brasileira de Cirurgia Cardiovascular. Disponível em: https://www.bjcvs.org/
  2. Casselman F, Van den Eynde J, et al. (EACTS/EACTAIC). 2024 EACTS/EACTAIC Guidelines on patient blood management in adult cardiac surgery. European Journal of Cardio-Thoracic Surgery. 2024. Disponível em: https://academic.oup.com/ejcts
  3. Girardi NI, Cushing MM, Evered LA, et al. Incidence and impact of a single-unit red blood cell transfusion: analysis of The Society of Thoracic Surgeons Database 2010-2019. Annals of Thoracic Surgery. 2023. Disponível em: https://www.annalsthoracicsurgery.org/
  4. Bennett-Guerrero E, Zhao Y, O'Brien SM, et al. Variation in use of blood transfusion in coronary artery bypass graft surgery. JAMA. 2010. Disponível em: https://jamanetwork.com/
  5. Mazer CD, Whitlock RP, Fergusson DA, et al. Restrictive or liberal red-cell transfusion for cardiac surgery (TRICS III). New England Journal of Medicine. 2017. Disponível em: https://www.nejm.org/
  6. Hajjar LA, Vincent JL, Galas FRBG, et al. Transfusion requirements after cardiac surgery: the TRACS randomized controlled trial. JAMA. 2010. Disponível em: https://jamanetwork.com/
  7. Lamy A, et al. (CORONARY Investigators). Off-pump or on-pump coronary artery bypass grafting. New England Journal of Medicine. 2012. Disponível em: https://www.nejm.org/
  8. Hawkins RB, Mehaffey JH, Kessel SM, et al. Minimally invasive mitral valve surgery is associated with excellent resource utilization, cost, and outcomes. Journal of Thoracic and Cardiovascular Surgery. 2018. Disponível em: https://www.jtcvs.org/
  9. Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC). Diretriz Brasileira de Cirurgia Cardiovascular. Arquivos Brasileiros de Cardiologia. Disponível em: https://www.scielo.br/j/abc/

Agradecemos à Dra. Lívia Silva de Paula Faria, primeira autora deste trabalho, médica residente do quinto ano do Hospital Felício Rocho (Belo Horizonte, MG), que realizou junto à nossa equipe, no segundo semestre de 2025, um estágio de duas semanas dedicado à cirurgia cardíaca minimamente invasiva. Sua contribuição foi essencial para a sistematização dos dados apresentados no 52º Congresso da Sociedade Brasileira de Cirurgia Cardiovascular.

Autoria e Revisão Médica Cirurgia Cardiovascular CRM 3947/MS • RQE 2916