Protocolo ERAS e rápida recuperação na Cirurgia Cardíaca: Como é Possível Receber Alta em até 4 Dias?
O protocolo ERAS na cirurgia cardíaca é um conjunto de práticas que otimiza a recuperação, reduz complicações e permite alta hospitalar segura em até 4 dias.
Protocolo ERAS na Cirurgia Cardíaca Resumo do Artigo: O protocolo ERAS (Enhanced Recovery After Surgery) representa uma revolução na medicina ao integrar cuidados de uma equipe multidisciplinar para acelerar a reabilitação do paciente. Por meio de medidas aplicadas antes, durante e após a cirurgia, ele reduz o estresse do organismo, minimiza a dor e diminui o tempo de internação. Essa estratégia inovadora possibilita uma recuperação segura com alta hospitalar em apenas 2 a 4 dias na cirurgia cardíaca minimamente invasiva.
A medicina moderna tem focado cada vez mais na experiência e no bem-estar global do paciente durante toda a sua jornada hospitalar. Na cirurgia cardíaca, essa evolução é nítida e vai muito além do ato cirúrgico em si, integrando ações que transformam totalmente o tempo de internação. Essa nova filosofia de atendimento é conhecida mundialmente como protocolo ERAS (Enhanced Recovery After Surgery). Essa metodologia reúne as melhores e mais recentes práticas científicas para acelerar a reabilitação física do paciente, permitindo que ele retorne para casa com rapidez e segurança.
Ao longo deste conteúdo, nós vamos explicar detalhadamente como o protocolo ERAS funciona em todas as etapas do tratamento e como ele possibilita a alta hospitalar em até 4 dias.
1. O QUE É O PROTOCOLO ERAS?
O protocolo ERAS (Enhanced Recovery After Surgery) é um conjunto de diretrizes de cuidados perioperatórios baseado em evidências científicas que visa otimizar a recuperação de pacientes submetidos a cirurgias de grande porte. O termo em inglês significa "recuperação otimizada após a cirurgia" e seu principal objetivo é diminuir a resposta do organismo ao estresse físico do procedimento.
Em vez de focar apenas no trabalho do cirurgião, o protocolo ERAS atua integrando o atendimento de uma equipe multidisciplinar completa. Isso envolve a atuação coordenada de cardiologistas, cirurgiões, anestesistas, enfermeiros, fisioterapeutas, nutricionistas, psicólogos e assistentes sociais.
Dessa forma, nós conseguimos preservar as funções dos órgãos do paciente e acelerar o seu restabelecimento. O ERAS deixa de lado práticas médicas antigas e desatualizadas, substituindo-as por condutas que priorizam o conforto físico e psicológico do paciente.
2. O PREPARO COMEÇA ANTES DA CIRURGIA (PRÉ-OPERATÓRIO)
A preparação do paciente para a cirurgia começa semanas antes do dia da internação no hospital. O primeiro pilar é a educação detalhada do paciente e de seus familiares sobre todas as fases do procedimento, o que ajuda a reduzir drasticamente a ansiedade e o medo naturais.
Nós também realizamos uma avaliação e otimização detalhada do estado nutricional e do controle de glicose no sangue. O paciente recebe orientações específicas para a prática de exercícios respiratórios e reabilitação física antes de operar, fortalecendo a musculatura pulmonar.
Outro ponto revolucionário do ERAS é a redução significativa do tempo de jejum absoluto. Em vez de ficar de 8 a 12 horas sem ingerir nada, o paciente toma uma bebida contendo carboidratos especiais (líquido claro e sem resíduos) até 2 horas antes de receber a anestesia, o que evita a desidratação e o mal-estar.
3. CUIDADOS AVANÇADOS DURANTE O PROCEDIMENTO (INTRA-OPERATÓRIO)
Durante a realização da cirurgia, a equipe adota estratégias anestésicas e cirúrgicas modernas para poupar ao máximo o organismo do paciente. Nós priorizamos uma anestesia com baixíssimo uso de opioides, utilizando uma combinação de medicamentos (analgesia multimodal) para evitar efeitos colaterais como náuseas e tonturas.
Também mantemos um controle rigoroso e constante da temperatura corporal do paciente, evitando a hipotermia no transcorrer do procedimento. A ventilação mecânica é feita de forma protetora para poupar os pulmões de inflamações e o manejo de soros e líquidos na veia é calculado de maneira milimétrica.
Além disso, a realização de procedimentos minimamente invasivos potencializa imensamente os resultados desse protocolo. Um excelente exemplo é a cirurgia da válvula mitral por vídeo, que reduz o trauma nos tecidos do tórax (sem abertura do osso esterno do peito) e favorece uma reabilitação extremamente rápida.
4. REABILITAÇÃO ACELERADA LOGO APÓS A OPERAÇÃO (PÓS-OPERATÓRIO)
Logo após o término da cirurgia, na Unidade de Terapia Intensiva (UTI), a equipe dá início imediato ao processo de reabilitação ativa. Uma das metas fundamentais do protocolo ERAS é realizar a retirada do tubo de respiração (extubação) no centro cirúrgico ou nas primeiras 6 horas após a chegada à UTI.
A mobilização precoce é estimulada de forma intensiva pela equipe de fisioterapia e enfermagem. O paciente é incentivado a sentar-se na poltrona e até mesmo a dar pequenos passos logo no primeiro dia pós-operatório, o que previne tromboses e melhora a função respiratória.
O retorno da alimentação por via oral também ocorre de forma rápida, iniciando com dietas leves assim que o paciente estiver acordado e seguro. Essa medida simples estimula o funcionamento natural do intestino e evita a necessidade de repor nutrientes exclusivamente por soros na veia.
5. QUAIS SÃO OS REAIS BENEFÍCIOS PARA O PACIENTE?
A aplicação sistemática de todas essas condutas integradas resulta em uma internação muito mais curta, segura e livre de complicações comuns. Nós observamos uma redução significativa nas taxas de infecção pulmonar, menor necessidade de transfusão de sangue e controle excelente da dor pós-operatória.
Para ilustrar de forma clara como o protocolo ERAS transforma o processo de reabilitação, preparamos a tabela comparativa abaixo detalhando os principais critérios de cada abordagem:
| Critério de Avaliação | Abordagem Hospitalar Tradicional | Recuperação com Protocolo ERAS |
|---|---|---|
| Tempo de Jejum Pré-operatório | Longo e absoluto (8 a 12 horas de jejum) | Reduzido (líquidos claros com carboidratos até 2h antes) |
| Retirada do Tubo Respiratório | Costuma ocorrer entre 12 a 24 horas | Precoce e planejada (no centro cirúrgico ou em até 6 horas após a cirurgia) |
| Saída do Leito e Caminhada | Restrita nos primeiros 2 a 3 dias | Estimulada precocemente (logo no primeiro dia pós-operatório) |
| Retorno da Dieta por Via Oral | Demorada, aguardando o retorno intestinal | Precoce (no primeiro dia de pós-operatório) |
| Uso de Medicações Opioides | Elevado (com maior índice de náuseas e delírio) | Reduzido e associado a analgesia multimodal protetora |
| Tempo de Alta Hospitalar | Geralmente de 7 a 10 dias de internação | Reduzido para 3 a 4 dias (na técnica minimamente invasiva) |
| Retorno às Atividades Normais | De 90 a 120 dias após a alta | Apenas 15 a 30 dias com protocolo integrado e programa de reabilitação |
A adoção dessas diretrizes representa um marco de qualidade e segurança assistencial, proporcionando ao paciente a segurança de estar sendo tratado com o que há de mais moderno na cirurgia cardiovascular.
Se você ou um familiar têm uma cirurgia cardíaca planejada e querem saber se são elegíveis para o protocolo ERAS e cirurgia minimamente invasiva, agende uma consulta de avaliação com nossos cirurgiões da equipe Cardio Assist.
6. PERGUNTAS FREQUENTES SOBRE O ERAS (FAQ)
Q: O protocolo ERAS é seguro ou apenas apressa a alta hospitalar de forma perigosa?
A: O protocolo ERAS é extremamente seguro e amplamente validado pelas maiores sociedades médicas do mundo. A alta hospitalar precoce é o resultado natural de um paciente que apresenta menos dor, caminha cedo, alimenta-se bem e tem menor inflamação no corpo, não há pressa e depende de bons critérios clínicos.
Q: Qualquer paciente que vai operar o coração pode participar do protocolo ERAS?
A: A imensa maioria dos pacientes pode se beneficiar do ERAS. No entanto, a equipe médica realiza uma avaliação pré-operatória minuciosa e ajusta os cuidados de acordo com as particularidades de cada indivíduo, como insuficiência renal crônica grave ou diabetes descompensada.
Q: Como funciona o jejum abreviado de líquidos claros com carboidratos?
A: O paciente ingere uma quantidade específica de água ou chá contendo maltodextrina ou outra solução de carboidratos até duas horas antes do horário previsto para a cirurgia. Essa medida nutre o corpo e evita que o paciente chegue ao procedimento em estado de estresse metabólico ou desidratação.
Q: A cirurgia clássica de peito aberto também pode se beneficiar do protocolo ERAS?
A: Sim, o protocolo ERAS traz benefícios excelentes tanto na cirurgia convencional quanto na minimamente invasiva. Porém, quando associamos o ERAS à cirurgia cardíaca por vídeo de corte reduzido, os tempos de internação chegam aos patamares de 2 a 4 dias.
Q: Qual a importância do fisioterapeuta no sucesso desse protocolo?
A: A fisioterapia é um dos pilares centrais do ERAS, atuando ativamente na habilitação cardiopulmonar pré-operatória e na mobilização física logo nas primeiras horas de pós-operatório. Esse suporte constante dá confiança e segurança para o paciente mover-se precocemente.
Q: Quais são as fases do protocolo ERAS e como funciona a reabilitação após a alta?
A: O protocolo ERAS é estruturado em três fases fundamentais: pré-operatória (preparação semanas antes), intra-operatória (cuidados anestésicos e cirúrgicos) e pós-operatória hospitalar (mobilização precoce e dieta rápida). No entanto, o cuidado não acaba na alta hospitalar; a reabilitação pós-alta (reabilitação cardiopulmonar ambulatorial) é crucial para devolver a autonomia do paciente com segurança. O tempo médio necessário para estar plenamente reabilitado e retornar às atividades normais, como dirigir e trabalhar, varia conforme a técnica cirúrgica e a condição física e nutricional pré-operatória:
- Na cirurgia cardíaca minimamente invasiva: o tempo de reabilitação completa varia entre 45 a 90 dias, devido à preservação da integridade do osso do peito.
- Na cirurgia cardíaca convencional: a recuperação total requer um período mínimo de 90 dias, visto que o osso esterno necessita desse tempo para consolidar-se e cicatrizar de forma totalmente segura.
Q: Quais hospitais praticam o protocolo ERAS na cirurgia cardíaca no Brasil?
A: No Brasil, a implementação formal de um programa ERAS voltado especificamente para a cirurgia cardíaca é uma iniciativa recente e restrita a poucos centros de excelência altamente especializados. O Hospital CASSEMS, em Campo Grande (MS), destaca-se como o pioneiro absoluto em toda a região Centro-Oeste, sendo o único hospital a adotar esse protocolo inovador para procedimentos cardiovasculares na localidade.
Essa prática avançada é realizada em parceria com a nossa equipe da Cardio Assist. Essa integração nos posiciona entre os raros serviços médicos do país a oferecer um cuidado multidisciplinar tão completo, garantindo aos pacientes um padrão de segurança e recuperação comparável ao dos melhores hospitais norte-americanos e europeus. Veja mais nesse artigo.
Nota de privacidade e ética médica: As imagens que ilustram as etapas de reabilitação neste artigo são representações artísticas inspiradas em casos reais de nossa prática clínica. Optamos por utilizar fotografias que foram convertidas em ilustrações digitais personalizadas para preservar integralmente a privacidade, a confidencialidade e a identidade dos nossos pacientes, em estrita conformidade com as normas de ética médica e com a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD).
7. REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS
- Grant MC, Crisafi C, Alvarez A, et al. Perioperative Care in Cardiac Surgery: A Joint Consensus Statement by the Enhanced Recovery After Surgery (ERAS) Cardiac Society, ERAS International Society, and The Society of Thoracic Surgeons (STS). Ann Thorac Surg. 2024. Disponível em: https://www.annalsthoracicsurgery.org/article/S0003-4975(23)01337-3/fulltext
- Gregory AJ, Grant MC, Manning MW, et al. Enhanced Recovery After Surgery (ERAS) for Cardiac Surgery: A Clinical Review. J Cardiothorac Vasc Anesth. 2020. Disponível em: https://www.jcvaonline.com/article/S1053-0770(19)30932-5/fulltext
- Sociedade Brasileira de Cardiologia. Diretrizes de Perioperatório em Cirurgia Cardiovascular. 2022. Disponível em: https://www.scielo.br/j/abc/
- ERAS® Cardiac Society. Official Portal and Clinical Guidelines. 2026. Disponível em: https://erascardiac.org/